AINDA SOMOS UMA SOCIEDADE ESTRATIFICADA EM RAÇA

15:32 - Não comentado


Um dos conceitos trabalhados em Sociologia é o de estratificação social. Este fenômeno social diz respeito ao processo de hierarquização da sociedade, em que cada indivíduo ou grupo social participa de maneira desigual da distribuição da riqueza, do poder e do prestígio, isto é, dos bens socialmente valorizados.

Comumente, afirma-se que a estratificação social pode ser apenas através de classes, castas ou estamentos. Porém, a raça é um fator capaz de aprofundar a estratificação social, pois ela influi de maneira a reduzir ou potencializar o acesso do indivíduo aos bens que são socialmente valorizados. No Brasil, por exemplo, existe uma quantidade enorme de dados que mostram a relação entre a pobreza e a cor da pele.

Os dados do Censo de 2010 confirmam que dentre a população em extrema pobreza no Brasil 70,8% seriam de negros. A conexão entre miséria e origem racial é tão grande no país que o programa Brasil Sem Miséria, cujo objetivo é eliminar a extrema pobreza, acaba sendo, mesmo sem querer, uma política afirmativa. Cerca de três quartos dos beneficiários do programa são negros.

Dos cadastrados no programa Bolsa Família, 73% são pretos ou pardos autodeclarados. Diante destes dados, a ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, conclui que “embora não exerçamos uma política afirmativa de convocar os negros, eles acabam mais favorecidos por serem mais vulneráveis”. Um estudo realizado neste ano de 2014 pelo Ipea revelou que se uma pessoa se autodeclarar preta ela aumenta em 10% a chance de adquirir um benefício social.

Outros dados: 65% dos matriculados no Pronatec são negros. Dos beneficiados pelo Brasil Carinhoso, 77% são pretos ou pardos. Os programas Água Para Todos e o Fomento às Atividades Produtivas têm entre seus beneficiados quase 80% de negros.

A estratificação social é um tipo complexo de desigualdade. Existem sociedades desiguais que não são estratificadas, pois para que acha estratificação é necessária a formação de estratos ou camadas sociais, onde os indivíduos possuem interesses e estilos de vida comuns e participam de modo semelhante do acesso de bens econômicos e oportunidades de vida.

Às vezes acontece que numa mesma camada social existem indivíduos com níveis de renda e escolaridade diferentes e que ocupam cargos profissionais diversos.  Neste caso, os critérios que ajudam a definir em que estrato social se situa o indivíduo são as oportunidades de vida e o estilo de vida.

“As oportunidades de vida derivam da situação do indivíduo no mercado e compreendem o acesso a bens e serviços: moradia, instrução, serviços médicos, lazer, por exemplo. Já o estilo de vida diz respeito aos padrões de comportamentos, às crenças, aos valores, às atitudes, às aspirações próprias de cada classe social”.

No que diz respeito as oportunidades de vida, os dados revelam que no Brasil o fato de uma pessoa nascer negra aumenta de modo significativo as dificuldades dela em ter acesso a bens básicos e necessários. Os números da Pnad de 2009 mostravam que a taxa de analfabetismo entre a população negra era de 26,7%, enquanto que entre os brancos, 5,9%. No que se refere a quantidade de anos de estudos, verifica-se que a média entre os brancos é de 8,4 anos e entre os negros 6,7. Os dados da Pnad de 2012 mostram que 4 milhões de negros estavam desempregados, enquanto que entre os brancos estes números caem para 2,6 milhões. Em relação a remuneração, 15% dos brancos recebiam menos de um salário mínimo. Entre os negros o número sobe para 27,8%. Os baixos salários, somados a baixa escolaridade, dificultam o acesso a bens básicos e necessários.

Apesar dos dados, no Brasil combater o racismo continua sendo um trabalho muito difícil, porque muitas pessoas acreditam que ele não existe. Chegam afirmar que aqueles que falam que a sociedade brasileira é racista são os verdadeiros racistas, pois querem criar uma situação inexistente no país. Ora, afirmam convictos, o Brasil conviveu e convive com uma democracia racial. Temos fatos concretos na história do país que mostram a ascensão social de negros, como, por exemplo, Machado de Assis e André Rebouças (negros com a alma branca é o que se dizia deles na época). Argumentam, como Gilberto Freire, que as distâncias sociais existentes no Brasil são frutos de diferenças de classe e de renda e não de preconceito de raça e de cor. O mulato, fazem questão de lembrar, é o símbolo da nacionalidade brasileira.

Contra os argumentos existem os dados. Estes revelam que a sociedade brasileira continua sendo estratificada em raças. De fato, nunca no Brasil o racismo foi oficializado como aconteceu nos Estados Unidos e na África do Sul. Porém, a história nos mostra que o racismo brasileiro é mais perigoso, uma vez que é velado. Da mesma forma que se diz que religião, futebol e política não se discutem, para muitos brasileiros o racismo tem de ficar de fora das rodas de debates.

Toda forma de estratificação envolve a construção de uma ideologia que serve para justifica-la. Certamente que no Brasil o mito da democracia racial presta este serviço a contento.


Por que a geração de Gilberto Freire reforçou a existência do mito da democracia racial no Brasil, enquanto que a geração posterior, liderada por Florestan Fernandes, trabalhou para desconstruí-lo? Este é um debate longo e que escapa dos objetivos deste texto. O certo é que a elite brasileira criava oportunidades de ascensão social a negros e mulatos, desde que eles se comprometessem a adotar a visão da elite sobre a questão racial e o papel dos negros na sociedade. Estas benesses, típicas de um sistema de patronagem e clientela, serviam para reforçar a ideologia da democracia racial, pois o negro que ascendia socialmente cumpria duas funções: a de testemunhar que no Brasil, diferentemente de outros países, existe a possibilidade do negro ascender socialmente e a de modelo para os outros negros que desejam também encontrar seu lugar ao sol. A elite brasileira afirmava: você pode até ascender socialmente, desde que saiba o seu lugar. Puro racismo velado. É como diz o antropólogo brasileiro Roberto DaMatta: o racismo no Brasil não é coisa para amadores.


Pascom-Remanso, texto Marcos Paulo.

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