RESENHA DO FILME “REINE SOBRE MIM”

17:55 - Não comentado


Reine sobre mim (Reign Over Me) é um filme de drama produzido em 2007. Foi escrito e dirigido por Mike Binder e produzido por Jack Binder. Apresenta, sobretudo, o drama de duas pessoas que foram amigas no tempo da faculdade de odontologia. A primeira é Alan Johnson (Don Cheadle), dentista bem sucedido, casado e pai de duas filhas. A segunda é Charlie Fineman (Adam Sandler), que perdeu a família (esposa e três filhas) nos atentados terroristas de 11 de setembro de 2011 e que agora sofre, supostamente, de Síndrome de Estresse Pós-traumático.

Alan Johnson ficou sabendo que a família de Charlie foi vítima do atentado terrorista promovido pela Al Qaeda que derrubou o avião que ia para Washington. Ele sempre desejou reencontrar o amigo. Este desejo se realizou de maneira casual após Alan levar sua filha a casa de uma amiga e, em seguida, cruzar com Charlie na rua. O encontro entre esses dois velhos amigos vai revelar a existência de dois egos fragilizados e em crise, cada qual precisando encontrar em seu interior alguma maneira de lidar com suas angústias.

Profissional bem sucedido, Alan Johnson é aparentemente o modelo de homem feliz. Sören Kierkegaard diria que ele se enquadra no perfil de pessoa que aborda a vida eticamente, pois como um típico bom marido é fiel, observa as leis e respeita os compromissos familiares. Há no filme várias cenas que comprovam este estilo de vida escolhido por Johnson: diante da paciente que lhe deseja fazer sexo oral, mantém a altivez e firmeza de um marido fiel à sua esposa; cumpre rigorosamente as normas e regras que regem seu ambiente de trabalho, apesar de muitas vezes discordar da postura de seus sócios e funcionários, dormindo diariamente às 22h:30min para acordar no outro dia com disposição e cuida dos pais e de sua família com muito zelo.

Usando a terminologia de Friedrich Nietzsche, podemos afirmar que Alan Johnson é um típico artista apolíneo, pois predomina nele o espírito do deus grego Apolo. O dentista age no mundo a partir de um modelo de vida idealizado. Em nome deste ideal de vida (construído culturalmente), renúncia a seus desejos, instintos e satisfações. Por exemplo, na cena em que ele aborda a psiquiatra Ângela Oakhurst (Liv Tyler) faz o seguinte questionamento à médica: “todo homem tem hobby de homem, jogar pôquer, jogar golfe”. É ele que quer gozar destes prazeres, mas não pode, porque nos momentos de lazer tem que dedicar a sua vida à sua família. Aliás, participa de um curso de fotografia com a esposa, atividade esta que lhe causa um grande tédio. Alan Johnson se deixa, portanto, orientar pelo princípio de realidade, pois segundo Sigmund Freud as pessoas regidas por este princípio se caracterizam por cumprir normas sociais, culturais e religiosas, recalcando e reprimindo seus desejos e instintos.

No decorrer do filme, fica evidente que o estilo de vida assumido por Alan Johnson não lhe realiza por completo. Quando passa a conviver novamente com Charlie Fineman, a vida dele ganha novo sabor e ele se diverte e se alegra com os momentos em que passa com seu amigo. Porém, a vida dele em casa e até mesmo no trabalho não vai tão bem. No restaurante com Charlie, ele revela: “sabe Charlie a Janeane (Jada Pinkett Smith) e eu não estamos muito bem. Ela sempre me pede para eu me abrir, pra falar com ela e quando eu falo ela leva pro lado pessoal e a coisa fica veia”. Após o questionamento do amigo que pergunta o que Alan gostaria de dizer a sua esposa, a personagem de Don Cheadle responde: “eu preciso de espaço”. Em seguida, Johnson afirma: “eu odeio o que eu faço. A grana é boa. Eu juro: eu odeio colocar dentes falsos nos outros. Eu sou dentista e quando as pessoas precisam é legal. Essas pessoas eu entendo, mas tem uns babacas que dá vontade de dar um tapa na cabeça deles e dizer ‘levanta, acorda pra vida, tem muito mais coisas pra se preocupar do que com os dentes’.

Charlie Fineman mudou radicalmente sua vida após a morte de sua família em 11 de setembro de 2011. Ficou órfão ainda criança, parou de trabalhar depois que perdeu a esposa e as filhas e vive com os recursos provenientes da pensão paga pelo governo. Segundo sua sogra Ginger Timpleman (Melinda Dillon), “tem o suficiente para viver muito bem”. Isolou-se das pessoas para evitar ter que lembrar do passado. Foi diagnosticado com Síndrome de Estresse Pós-traumático e possui pensamentos suicidas.

A personagem de Adam Sandler evita de todas as formas tocar em seu passado e também não demonstra nenhuma expectativa de futuro. Porém, vive um presente de muita dor, sofrimento, angústia e desespero. Às vezes se mostra distante e se torna agressivo sempre que alguém tenta conversar com ele a respeito de seu passado. Na cena em que Charlie e Alan vão a um show de punk rock, os dois terminam brigando, com direito a cerveja no rosto de Alan, só porque ele tentou puxar conversa sobre a família de Charlie. Em outra cena no consultório odontológico em que Johnson trabalha, Charlie agride o amigo só por que foi questionado se sentia falta da época em que era dentista.

O instinto de morte reina sobre Charlie, pois suas atitudes e ações são marcadas pelo ódio e a destruição, manifestando-se em desejos de agressividade. Não quer de forma alguma se aproximar de terapeutas, considerando-os nojentos e “com cara de mané”.

A existência é construída diariamente a partir das escolhas e renúncias que a pessoa humana vai fazendo ao longo da vida. Somos livres, fadados à liberdade diria Jean-Paul Sartre, um projeto existencial que constrói identidade ao projetar-se em direção ao mundo, aos seres do mundo. Inseridos no mundo da vida, somos responsáveis por aquilo que escolhemos ou deixamos de escolher. Negar isso é agir de má-fé. Vivemos e convivemos (alguns se atormentam) com a realidade da angústia da escolha.

Seriamos nós totalmente livres em nossos desejos, escolhas e decisões? Somos mesmos senhores em nossas casas? Charlie certamente diria que não, pois jamais desejaria perder a família em um acidente trágico e se estivesse no controle de tudo não permitiria que seus entes queridos entrassem naquele avião. É a velha contradição entre liberdade e determinismo. O revolucionário Karl Marx, que conclamava os proletários e oprimidos a se unirem para mudar radicalmente a sua realidade, afirmava: “os homens fazem a história, mas não a fazem como querem. Eles a fazem sob condições herdadas do passado”.

A visão trágica da vida revela justamente a contradição que existe entre determinismo e liberdade. Os gregos pré-socráticos, por exemplo, tinham plena convicção de que a vida é devir e infinitamente maior que o sujeito de ação e que o desejo do mundo submete o querer particular. Os cristãos vivem um drama semelhante, pois sabem que Deus os criou com livre-arbítrio, mas tem que conciliar esta certeza com o ensinamento de São Paulo que diz: “aqueles que Deus antecipadamente conheceu, também os predestinou a serem conformes à imagem do seu Filho, para que este seja o primogênito entre muitos irmãos” (Rm. 8, 29)

Charlie Fineman certamente possuía todas as credenciais para uma vida feliz: profissional liberal de sucesso e pai em uma família feliz. Aí veio o acidente e tudo em sua vida mudou. Toda aquela capacidade de planejamento, estabelecimento de objetivos, metas e tarefas, isto é, a racionalidade da vida, não foi capaz de prever e prevenir a fatalidade que vitimou sua família. “Por detrás dos seus pensamentos e sentimentos, meu irmão, há um senhor mais poderoso, um guia desconhecido. Chama-se ‘eu sou’”, diria Nietzsche à Charlie. Aliás, o filósofo chamava esse senhor mais poderoso de vontade de potência. Já Arthur Schopenhauer falava simplesmente de vontade, ao passo que Henri Bergson, elã vital. É como dizia Freud: “não somos donos de nossa própria casa”. Citação que vem calar fundo no coração de Charlie, sujeito até então consciente e convicto de suas escolhas.

Alan Johnson sabia que o amigo estava passado por dificuldades e que precisava de ajuda. “O cara tá sofrendo lá. Lá é muito triste, amor. Aquilo é um mar de tristeza”, confessou a sua esposa a respeito do mundo (a casa) em que Charlie vive. Mas antes de ajudá-lo era preciso convencer Fineman de ele precisava de ajuda. Em psicanalise, é fundamental para o sucesso da terapia que o paciente reconheça o caráter psicológico de seus distúrbios e a disposição para experimentar e tentar mudanças. Porém, Charlie era avesso a qualquer tipo de terapia e ficava agressivo todas as vezes que alguém sugeria que ele precisava se tratar.

Talvez Charlie queria se tornar um sujeito esteta, no entendimento de Kierkegaard, na crença de que assim seria capaz de superar seu desespero. O protótipo do indivíduo que escolhe viver uma vida estética é Dom Juan, que busca a máxima satisfação do prazer no tempo presente, evitando a repetição e tentando fazer único cada instante da vida.

Esquecer o passado, não projetar o futuro e viver intensamente o presente, eis a estratégia de Charlie para lidar com seu sofrimento.

Para Santo Agostinho, o passado e o futuro só existem no presente. O primeiro enquanto memória e o segundo como antecipação. Se repararmos bem, a memória do passado provoca sentimento de nostalgia, quando aquilo que passou é afirmado, ou sentimento de culpa, quando aquilo que passou é negado. Da mesma forma, a antecipação do futuro é positiva quando se vive na esperança ou negativa quando se teme o que há de vir. Ficar preso a uma dessas sensações, nostalgia ou esperança e culpa ou temor, impossibilita a vivência do presente.

Charlie Fineman é perturbado pelo sentimento de culpa e temor. Na cena em que Johnson recebe a notícia da morte do pai, Fineman aparentemente ignora o fato e convida Alan para sair e tomar um cafezinho ou fazer outra coisa como, por, exemplo, comer comida chinesa. Na verdade, não é que Charlie foi insensível com a dor do amigo, só temia que ele sofresse com a perda de um ente querido. Podemos, inclusive, sugerir que Charlie evita fazer novos amigos e não quer apostar numa nova relação porque teme a possibilidade de perdê-los no futuro.

Na conversa com Alan no restaurante, Charlie revela que reforma constantemente a cozinha de sua casa porque da última vez que falou com a esposa ela estava no aeroporto de Boston, esperando o avião, e ligou para ele para falar sobre a reforma da cozinha e ele não deu muita atenção, além de ter sido grosso com ela. Talvez esta revelação explique o motivo pelo qual Charlie só entra ou deixa alguém entrar em sua casa com os pés descalços. Sua mulher não permitia que ele pisasse no tapete da sala com os pés calçados. Assim, acredita que essa proibição é uma forma de mostrar que ele amava a esposa.

Ao ver a situação do amigo, Alan afirma que ele tem que superar tudo isso e arremata: “garanto que você disse várias coisas bonitas para ela [a esposa] e você vai superar isso”. Em seguida, Charlie, em mais uma demonstração clara de que teme o futuro do amigo, preocupa-se com o rumo da relação entre ele (Johnson) e a esposa.
A situação de Charlie exige um tratamento que seja capaz de fazê-lo superar sua dor e sofrimento. A sua aceitação em se submeter ao tratamento só possível por causa do apoio oferecido por Alan, que se comprometeu, apesar da discordância de Janeane, em ajuda-lo.

O filme não se preocupa em mostrar em detalhes o tratamento de Charlie com analista Drª Ângela Oakhurst. Porém, podemos tecer algumas observações importantes sobre a terapia psicanalítica. Ela começa após a entrevista inicial. O filme não mostra este processo, mas é sempre importante destacar que a entrevista inicial é fundamental para o andamento do tratamento psicoterapêutico, pois, a depender do desempenho do terapeuta, ela contribuirá para a construção de vínculos de empatia entre o paciente e o terapeuta. Seu objetivo é levantar informações sobre o analisando a respeito de seu funcionamento psíquico, isto é, suas condições emocionais, mentais, materiais e circunstanciais. De posse dessas informações e a partir da articulação dos dados fornecidos, o terapeuta será capaz de orientar a pessoa para determinada atividade terapêutica.

Na entrevista inicial, o analista faz o diagnóstico motivacional do paciente, identificando o real interesse do mesmo com relação ao tratamento, bem como suas expectativas. O sucesso do tratamento psicoterapêutico depende da formação de uma aliança terapêutica necessária, positiva e estável entre o ego do analista e o ego do paciente. Esta aliança começa a ser construída na entrevista inicial.

A relação do paciente com o terapeuta deve ser objetal racional, dessexualizada e desagressificada. Nas poucas sessões que mostram Charlie com sua terapeuta, o que podemos perceber é um sujeito impaciente, agressivo e obcecado pelos seios da analista.

O trabalho do analista tem como objetivo fazer com que o ego do paciente renuncie às suas defesas patogênicas ou encontre outras mais convenientes. Existe uma parte do analisando que quer falar. Porém, há uma outra que cria resistências ao analista, ao trabalho do terapeuta e ao lado racional do ego do paciente. O objetivo da aliança terapêutica é criar as condições que permitam ao paciente superar estas barreiras que o faz evitar dizer alguma coisa. Para isso, o paciente precisa confiar no analista. O estabelecimento desta confiança só é possível quando o analista constrói com seus pacientes vínculos de empatia e mantém uma atitude de aceitação ao paciente sem dominá-lo e sem julgá-lo.

O interessante no filme é que Charlie confia apenas em Alan, tanto que nas poucas vezes em que falou de sua relação com a família foi com Johnson. Este certa vez advertiu a filha mais velha, após ela fazer um piada sobre Charlie, dizendo: “filha não fale assim, está bem? Não julgue as pessoas porque é falta de educação”. Alan nunca obrigou Charlie a fazer alguma coisa e nunca o desafiou com um olhar de julgamento. Pelo contrário, sempre se mostrou disponível a ajudá-lo quando ele quisesse.

Não sabemos o destino das personagens, pois Reine Sobre Mim não se preocupa em mostrá-lo. Mas à guisa de conclusão, podemos destacar o papel da amizade e da liberdade partilhada na construção da existência e na superação dos problemas tão comuns numa vida que por vezes manifesta seu viés trágico. Não estamos nunca no controle de tudo.


Por derradeiro, citamos uma passagem do livro O existencialismo é um humanismo de Jean-Paul Sartre: “se verdadeiramente a existência precede à essência, o homem é responsável por aquilo que é. Assim, o primeiro esforço do existencialismo é o de pôr todo homem no domínio do que ele é e de lhe atribuir a total responsabilidade da sua existência. E, quando dizemos que o homem é responsável por si próprio, não queremos dizer que o homem é responsável pela sua restrita individualidade, mas que é responsável por todos os homens [...] Se a existência, por outro lado, precede a essência e se quisermos existir, ao mesmo tempo em que construirmos a nossa imagem, esta imagem é válida para todos e para toda a nossa época. Assim, a nossa responsabilidade é muito maior do que poderíamos supor, porque ela envolve toda a humanidade”.

Pascom-Remanso, Texto: Marcos Paulo 

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