Em discurso aos Movimentos Populares, Papa Francisco pede o empenho de todos na construção de uma economia justa, solidária e fraterna

11:19 - Não comentado

Em sua visita a Bolívia, o papa Francisco participou do Encontro Mundial dos Movimentos Populares em Santa Cruz de la Sierra, no dia 09/07/2015. Na oportunidade, proferiu um discurso considerado por várias lideranças de movimentos populares como “irretocável”. Nas palavras do teólogo brasileiro Leonardo Boff a presença de Francisco nos três países mais pobres da América Latina (Equador, Bolívia e Paraguai) apenas confirma sua opção preferencial pelos pobres. “Ele escolheu exatamente os três países mais pobres da América Latina, que são também os mais ocupados e habitados por indígenas. Uma causa que ele sempre defendeu, seja como Cardeal, e agora como Papa. Então, é dar privilégio a esses que não contam historicamente, e ele quer apoia-los”, afirma Boff.


(Foto: Reuters/Osservatore Romano)
Mídia brasileira desnorteada concentra-se no presente que
Evo Morales deu a Francisco e não escreve uma linha
sobre seu discurso em Santa Cruz de la Sierra

O discurso de Francisco foi uma crítica ao capitalismo e uma reflexão sobre a necessidade de se mudar o sistema econômico que promove a idolatria do Dinheiro, colocando o serviço ao Bem Comum em segundo plano, por uma “economia verdadeiramente comunitária”, de inspiração cristã, que garanta aos Povos “dignidade, prosperidade e civilização em seus múltiplos aspectos”.

Em um trecho de seu discurso, o papa faz a seguinte denuncia: “quando o Capital se torna um ídolo e dirige as opções dos seres humanos, quando a avidez do dinheiro domina todo o sistema sócio-econômico, arruína a sociedade, condena o Homem, transforma-o em escravo, destrói a fraternidade inter-humana, faz lutar povo contra povo e até, como vemos, põe em risco esta nossa Casa Comum”. Em seguida, afirma que esta dura e cruel realidade evidencia a existência de uma “ditadura sutil”.

Segundo Francisco, a avalanche de notícias negativas veiculadas todos os dias pela mídia, bem como os vários diagnósticos nada promissores sobre o futuro da humanidade podem nos conduzir a duas situações: ou um “pessimismo charlatão”, ou a “rejubilação com o negativo”. Porém, o anseio por mudança, que toca até mesmo o coração triste de muitos que se beneficiam com o sistema, inspira-nos a apontar caminhos e a valorizar as muitas formas de economia solidária já adotadas.

A verdadeira mudança, lembra o pontífice, enriquece-se “com o trabalho conjunto de governos, movimentos populares e outras forças sociais”. Mas qual deve ser o conteúdo desta mudança? Francisco admite que não seja fácil defini-lo. “Não esperem uma receita deste papa. Nem o papa nem a Igreja têm o monopólio da interpretação da realidade social e da proposta de soluções para os problemas contemporâneos”. Mas aponta alguns caminhos e sugere alguns exemplos.

 A economia precisa estar a serviço dos povos. “Digamos não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra”.

A Casa Comum precisa ser zelosamente cuidada e os bens distribuídos adequadamente entre todos. “Uma economia justa deve criar as condições para que cada pessoa possa gozar duma infância sem privações, desenvolver os seus talentos durante a juventude, trabalhar com plenos direitos durante os anos de atividade e ter acesso a uma digna aposentação na velhice. É uma economia onde o ser humano, em harmonia com a natureza, estrutura todo o sistema de produção e distribuição de tal modo que as capacidades e necessidades de cada um encontrem um apoio adequado no ser social”.

Engana-se quem pensa que a humanidade não produz o suficiente para o desenvolvimento integral de todos e de todas. O problema, recorda Francisco, é que existe “um sistema que, apesar de acelerar irresponsavelmente os ritmos da produção, apesar de implementar métodos na indústria e na agricultura que sacrificam a Mãe Terra na era da ‘produtividade’, continua a negar a milhares de milhões de irmãos os mais elementares direitos econômicos, sociais e culturais”. Esta realidade é um atentado contra o projeto de Jesus.

Em outra passagem forte de seu discurso, Francisco afirma: “a justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É um dever moral. Para os cristãos, o encargo é ainda mais forte: é um mandamento”. Ele também relativiza o conceito de propriedade privada, dizendo que “o destino universal dos bens não é um adorno retórico da Doutrina Social da Igreja. É uma realidade anterior à propriedade privada”. Portanto, “a propriedade, sobretudo quando afeta os recursos naturais, deve estar sempre em função das necessidades das pessoas. E estas necessidades não se limitam ao consumo”.

Sobre os Movimentos Populares e sua atuação, o papa Francisco dirige-lhes belas palavras: “vós sois poetas sociais: criadores de trabalho, construtores de casas, produtores de alimentos, sobretudo para os descartados pelo mercado global”. Em seguida, elenca várias experiências capazes animar a caminhada daqueles e daquelas que lutam por uma economia justa, fraterna e solidária, a exemplo das várias cooperativas, empresas recuperadas, feiras francas e cooperativas de catadores de papelão.

Francisco encerra seu discurso pedindo que Estado e Organizações Sociais assumam o compromisso os “3T” (trabalho, teto e terra) e conclamando a todos a dizerem:

“Nenhuma Família Sem Teto,
Nenhum Camponês Sem Terra,
Nenhum Trabalhador Sem Direitos,
Nenhum Povo Sem Soberania,
Nenhuma Pessoa Sem Dignidade,
Nenhuma Criança Sem Infância,
Nenhum Jovem Sem Possibilidades,
Nenhum Idoso Sem Uma Veneranda Velhice”.


Referências:



Para ler sobre a cobertura (ou melhor, a falta dela) pela mídia brasileira do discurso do papa acesse: http://www.viomundo.com.br/denuncias/desnorteada-com-o-discurso-do-papa-na-bolivia-midia-foca-em-crucifixo.html

Para ouvir ou ler a entrevista de Leonardo Boff sobre a visita do papa aos países da América Latina acesse: http://www.conversaafiada.com.br/economia/2015/07/06/boff-viagem-do-papa-e-para-os-mais-pobres/

Para ler um exemplo de cobertura da grande mídia brasileira a visita do papa a Bolívia acesse: http://g1.globo.com/mundo/noticia/2015/07/religiosos-consideram-presente-de-evo-morales-ao-papa-uma-provocacao.html


Por Marcos Paulo


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Pastoral da Comunicação - Paróquia Nossa Senhora do Rosário, Remanso/BA - Diocese de Juazeiro/BA

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